Thursday, 4 June 2009
Friday, 3 April 2009
Wednesday, 25 March 2009
Eu e os outros

Aqui fala-se de futebol. Estou sentada numa mesa do café, olho para as minhas unhas ruidas e peladas e penso que também devia estar a falar de futebol. Para quê pensar em angústias quando se pode falar de futebol? Quando se pode discutir que o Sporting foi roubado frente ao Benfica (e eu sou do Benfica)? E como Benfiquista que sou, devia afirmar-me, devia levantar-me desta mesa e ir falar sobre isto com estes senhores. Devia discutir sobre penaltys inventados e sobre o que o Nuno Gomes ainda anda ali a fazer. Seria um pouco mais feliz. Esqueceria por um momento que fosse que não me sinto de maneira nenhuma, e quando me sinto é para me sentir uma merda. E eu devia era sentir-me importante como um jogador de futebol. No fundo, são eles que salvam o mundo. São eles os nossos Heróis. São eles a nossa família, os nossos amigos, os nossos Deuses. Quem nunca quis ser jogador de futebol nunca quis ser nada. Quem não gosta de jogadores de futebol não gosta de nada. Quem não discute sobre futebol, deixa a vida passar ao lado. E como eu admiro estes senhores do café! Eles não estão a pensar na mulher que está em casa sozinha a cozinhar uma pescada com batatinhas cozidas, preparando-se para ver a novela. Não estão a pensar no quisto que têm no pescoço, nem no colesterol prestes a rebentar, nem que não têm dinheiro para remodelar a cozinha. Não estão a pensar que não têm férias no estrangeiro há mais de quinze anos, nem no grande amor que perderam por volta dos vinte e um, vinte e dois anos. Estão a falar de futebol com emoção, parecem-me ignorar totalmente o vazio das suas vidas e eu queria ser como eles.
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planeta Claudiano
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Saturday, 21 March 2009
Monday, 2 March 2009
O menino de sua mãe
A senhora tem entre sessenta e setenta anos. Está vestida de tailler, óculos de armação dourada com brilhantes e usa o cabelo armado à La Madalena Iglesias. O filho está sentado ao lado dela. Tem uns quarenta anos, usa óculos e tem vestida a roupa que a senhora sua mãe lhe escolheu de manhã. As mãos dele estão encolhidas entre as pernas, todo ele é metido para dentro, quase não respira, quase não olha as pessoas nos olhos. A senhora sua mãe tem uma pose divina, olha todos lá do alto, até o sorriso é estudado. Ele fala-lhe da nova mobília que viu para o seu quarto. Não é cara, dá jeito para arrumar tudo e combina com os seus brinquedos, os brinquedos que a mãmã coloca em sítios estratégicos, para dar menos trabalho a limpar o pó. Ele também limpa o pó todos os Domingos, entre as nove e as dez da manhã, depois de ter tomado um pequeno-almoço cuidadosamente feito pela mãmã, com muito suminho, torradinhas, ou então apenas uma taça de cereais, os mesmos que come desde criança, porque nota-se que ele não deve ser muito dado a mudanças. A mãe também não gosta de mudanças. A mobília sim, pode mudar-se para outra, pode ser que ela concorde com essa da qual ele fala tão entusiasmado. Todas as noites tem olhado para ela no site do Ikea, logo a seguir ao jantar, entre as 20h e as 21h, hora sagrada em que a mãe o deixa navegar na Internet. Messenger não usa, não costuma ir para os copos com os amigos, não tem flirts, logo não precisa disso para nada, quando tem algum coisa a dizer telefona e depois mostra a duração da chamada à mãmã, e faz uma breve descrição da conversa para que ela saiba absolutamente tudo da sua vida, não pode perder pormenores e ai dele que volte a ir ao cinema sozinho, como da outra vez, sem a ter avisado com muita antecedência, sabe-se lá o que lhe podia acontecer. Durante toda a viagem ele não se atreve a olhar para mim, nem para a rapariga do lado, nem para qualquer outra mulher da carruagem. Uma vez, uma rapariga deu-lhe um beijo na escola preparatória e ele apaixonou-se, mas a mãe não o deixou namorar até ele acabar os estudos, e agora a sua roupa escolhida pela mãe, os óculos grossos, a expressão triste, o corpo metido para dentro, a falta de conversa, não o deixam ter ninguém. Por mais que ele quisesse, o tempo e a mãmã apoderaram-se dele, engoliram-no todo, sobra a figura telecomandada pela senhora com pose, uma figura mecânica que não ousa desiludir a mãmã, que vai viver com ela até que ela morra, depois de alguns anos com alzheimer, deitada na sua cama com frisos dourados, com ele ao lado, a segurar-lhe na mão, fechar-lhe os olhos, a olhar em volta, a ver-se sem nada, a ver-se sem vida, só com a mobília do ikea, as colecções antigas e os seus escritos deprimentes, em que diz que se sente sozinho. Eles saem da carruagem e eu penso em mim. Penso que tenho sorte, que sou livre, que vou vivendo como posso, como quero e que sim, a vida é muito injusta, mas quanto a isso não há nada a fazer.
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Tuesday, 17 February 2009
São Valentim
Estou sozinha no bar, a beber um whisky. Com o meu caderno, a caneta emprestada do empregado, e o meu whisky. E uma nódoa na mesa. Na realidade, estou a cagar para o dia de São Valentim. Mas não pude deixar de reparar nos casais que passaram por mim, pelo caminho até aqui. Estavam demasiado queridos, demasiado fofinhos, demasiado apaixonados. Só porque hoje é hoje. Porque hoje foi estipulado, que é o dia de São Valentim e que se deve mostrar ao mundo que se está apaixonado por alguém. É como se esses casais, tivessem reprimido até agora toda a paixão que sentem só para hoje poderem beijar mais, amar mais, foder mais. Ah, bendito dia de São Valentim, o que fazes às pessoas! E nos outros dias? Não é preciso beijar, amar, foder? Nos outros dias ninguém oferece flores, ninguém oferece um cartão romântico, por mais piroso que seja, ninguém escreve cartas de amor? Não é preciso, porque hoje é que interessa. Hoje nem sequer se pode ressonar depois do sexo, não é romântico. Mas nos outros dias já se pode. Nos outros dias já se pode chamar puta à namorada, encornar a namorada, não achar piada à namorada. MAs hoje não, porque hoje tem de ser perfeito e bonitinho e rendilhado e com floreados, como num quadro renascentista. E eu estou contra. Hoje não tenho cartão romântico, nem me vou declarar a ninguém, nem andar vestida de cor-de-rosa. E como já pensei em ti todos os dias, hoje não penso. Hoje sou puta, hoje encorno-te, hoje cuspo-te em cima.
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planeta Claudiano
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Sunday, 8 February 2009
Claudices
Quem me conhece bem, sabe que escrevo devaneios quase desde que sei escrever. Por isso acho que é um sonho, sim, o que me está a acontecer (rimei, mas foi sem querer. E isto também rima). Ainda não caí bem na realidade porque tenho levado isto como uma brincadeira. mas uma brincadeira que se vai tornando séria. Do que falo? Uma editora pegou nas minhas "Claudices" e vai publicá-las. Ah, olhai para mim oh mundo, que as minhas palavras vão mudar a história. Estou a ser irónica. Não faço ideia a quem é que os meus devaneios vão interessar, mas isso também não é problema meu. A Editora que não se metesse comigo... Por acaso fui eu que me meti com ela, mas eu estava a brincar... Agora olha. Vai ser mais um livro sem interesse nenhum a ocupar uns centímetros de prateleira de uma livraria qualquer.
O livro deverá sair no máximo até Maio, e até lá vou fingir que nada se passa. Quando tiver o bichinho nas mãos e o puder folhear, aí sim, vou acordar. Dedico desde já este livro a todos os que têm acompanhado os meus devaneios e ainda não se cansaram de os ler. Estou feliz, sim. Agora vou ali beliscar-me e gritar pela janela. E treinar autógrafos. Estou a brincar. Estão todos proibidos de comprar o livro. Ok? Afinal vou mas é espreitar o Porto-Benfica.
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planeta Claudiano
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