São Valentim
Estou sozinha no bar, a beber um whisky. Com o meu caderno, a caneta emprestada do empregado, e o meu whisky. E uma nódoa na mesa. Na realidade, estou a cagar para o dia de São Valentim. Mas não pude deixar de reparar nos casais que passaram por mim, pelo caminho até aqui. Estavam demasiado queridos, demasiado fofinhos, demasiado apaixonados. Só porque hoje é hoje. Porque hoje foi estipulado, que é o dia de São Valentim e que se deve mostrar ao mundo que se está apaixonado por alguém. É como se esses casais, tivessem reprimido até agora toda a paixão que sentem só para hoje poderem beijar mais, amar mais, foder mais. Ah, bendito dia de São Valentim, o que fazes às pessoas! E nos outros dias? Não é preciso beijar, amar, foder? Nos outros dias ninguém oferece flores, ninguém oferece um cartão romântico, por mais piroso que seja, ninguém escreve cartas de amor? Não é preciso, porque hoje é que interessa. Hoje nem sequer se pode ressonar depois do sexo, não é romântico. Mas nos outros dias já se pode. Nos outros dias já se pode chamar puta à namorada, encornar a namorada, não achar piada à namorada. MAs hoje não, porque hoje tem de ser perfeito e bonitinho e rendilhado e com floreados, como num quadro renascentista. E eu estou contra. Hoje não tenho cartão romântico, nem me vou declarar a ninguém, nem andar vestida de cor-de-rosa. E como já pensei em ti todos os dias, hoje não penso. Hoje sou puta, hoje encorno-te, hoje cuspo-te em cima.
2 rotações:
pfff...partilho totalmente o espírito. foi um dia normalíssimo.
Dia de S. Valentim é para quem acha que há um dia por ano em que se TEM de ser piroso. Eu sou a favor de se ser piroso todos os dias, e de ser o exacto oposto ao mesmo tempo. Cá para mim os gajos que fabricam cartões vão começar também a capitalizar na malta que não tem ninguém e fazer cartões a dizer "Fuck Valentine".
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