Wednesday, 25 March 2009

Eu e os outros



Aqui fala-se de futebol. Estou sentada numa mesa do café, olho para as minhas unhas ruidas e peladas e penso que também devia estar a falar de futebol. Para quê pensar em angústias quando se pode falar de futebol? Quando se pode discutir que o Sporting foi roubado frente ao Benfica (e eu sou do Benfica)? E como Benfiquista que sou, devia afirmar-me, devia levantar-me desta mesa e ir falar sobre isto com estes senhores. Devia discutir sobre penaltys inventados e sobre o que o Nuno Gomes ainda anda ali a fazer. Seria um pouco mais feliz. Esqueceria por um momento que fosse que não me sinto de maneira nenhuma, e quando me sinto é para me sentir uma merda. E eu devia era sentir-me importante como um jogador de futebol. No fundo, são eles que salvam o mundo. São eles os nossos Heróis. São eles a nossa família, os nossos amigos, os nossos Deuses. Quem nunca quis ser jogador de futebol nunca quis ser nada. Quem não gosta de jogadores de futebol não gosta de nada. Quem não discute sobre futebol, deixa a vida passar ao lado. E como eu admiro estes senhores do café! Eles não estão a pensar na mulher que está em casa sozinha a cozinhar uma pescada com batatinhas cozidas, preparando-se para ver a novela. Não estão a pensar no quisto que têm no pescoço, nem no colesterol prestes a rebentar, nem que não têm dinheiro para remodelar a cozinha. Não estão a pensar que não têm férias no estrangeiro há mais de quinze anos, nem no grande amor que perderam por volta dos vinte e um, vinte e dois anos. Estão a falar de futebol com emoção, parecem-me ignorar totalmente o vazio das suas vidas e eu queria ser como eles.

3 rotações:

curse of millhaven said...

eu cá prefiro mesmo não ligar nada a futebol, acho que os meus nervos não aguentavam discussões semanais acesas...

du said...

já me perguntei muitas vezes se não seria mais feliz se fosse uma pessoa normal, com paixões materiais e limitando-me a procurar um bom dia-a-dia.

eu nunca gostei de futebol.
não sei jogar.
nunca quis ser um jogador.
tenho vergonha de ver o estado a que o futebol leva as pessoas, como qualquer extremismo.

eu não vibro com a bola, eu passo o dia a preocupar-me com os outros e com o que posso fazer para melhorar alguma coisa.

eu não sou feliz, e provavelmente nunca vou ser mais do que isto.
eles são felizes, nas suas vidas pacatas e rotineiras.

se calhar devia gostar de futebol.

hg said...

O futebol deveria chamar-se Prozac. Ou será o contrário?