Monday, 2 March 2009

O menino de sua mãe

A senhora tem entre sessenta e setenta anos. Está vestida de tailler, óculos de armação dourada com brilhantes e usa o cabelo armado à La Madalena Iglesias. O filho está sentado ao lado dela. Tem uns quarenta anos, usa óculos e tem vestida a roupa que a senhora sua mãe lhe escolheu de manhã. As mãos dele estão encolhidas entre as pernas, todo ele é metido para dentro, quase não respira, quase não olha as pessoas nos olhos. A senhora sua mãe tem uma pose divina, olha todos lá do alto, até o sorriso é estudado. Ele fala-lhe da nova mobília que viu para o seu quarto. Não é cara, dá jeito para arrumar tudo e combina com os seus brinquedos, os brinquedos que a mãmã coloca em sítios estratégicos, para dar menos trabalho a limpar o pó. Ele também limpa o pó todos os Domingos, entre as nove e as dez da manhã, depois de ter tomado um pequeno-almoço cuidadosamente feito pela mãmã, com muito suminho, torradinhas, ou então apenas uma taça de cereais, os mesmos que come desde criança, porque nota-se que ele não deve ser muito dado a mudanças. A mãe também não gosta de mudanças. A mobília sim, pode mudar-se para outra, pode ser que ela concorde com essa da qual ele fala tão entusiasmado. Todas as noites tem olhado para ela no site do Ikea, logo a seguir ao jantar, entre as 20h e as 21h, hora sagrada em que a mãe o deixa navegar na Internet. Messenger não usa, não costuma ir para os copos com os amigos, não tem flirts, logo não precisa disso para nada, quando tem algum coisa a dizer telefona e depois mostra a duração da chamada à mãmã, e faz uma breve descrição da conversa para que ela saiba absolutamente tudo da sua vida, não pode perder pormenores e ai dele que volte a ir ao cinema sozinho, como da outra vez, sem a ter avisado com muita antecedência, sabe-se lá o que lhe podia acontecer. Durante toda a viagem ele não se atreve a olhar para mim, nem para a rapariga do lado, nem para qualquer outra mulher da carruagem. Uma vez, uma rapariga deu-lhe um beijo na escola preparatória e ele apaixonou-se, mas a mãe não o deixou namorar até ele acabar os estudos, e agora a sua roupa escolhida pela mãe, os óculos grossos, a expressão triste, o corpo metido para dentro, a falta de conversa, não o deixam ter ninguém. Por mais que ele quisesse, o tempo e a mãmã apoderaram-se dele, engoliram-no todo, sobra a figura telecomandada pela senhora com pose, uma figura mecânica que não ousa desiludir a mãmã, que vai viver com ela até que ela morra, depois de alguns anos com alzheimer, deitada na sua cama com frisos dourados, com ele ao lado, a segurar-lhe na mão, fechar-lhe os olhos, a olhar em volta, a ver-se sem nada, a ver-se sem vida, só com a mobília do ikea, as colecções antigas e os seus escritos deprimentes, em que diz que se sente sozinho. Eles saem da carruagem e eu penso em mim. Penso que tenho sorte, que sou livre, que vou vivendo como posso, como quero e que sim, a vida é muito injusta, mas quanto a isso não há nada a fazer.

3 rotações:

du said...

note-se: comentário lavrado sob chantagem emocional violenta.

brilhante. está tão bom que se chega mesmo a sentir asco pela situação, e a ter vontade de dar um estalo ao homem para acordar.

e por outro lado faz-me pensar nos tipos que pegam numa arma e arrumam 4 ou 5 civis sem mais nem menos...

curse of millhaven said...

ainda hoje vi um que tinha todo o tipo de ser assim...

eles andam aí, oh se andam..

João Loff said...

Já trabalhei com um destes. Tinha óculos fumados que usava ao computador, 40 anos e vestia-se como um puto que nunca saiu do quarto. E ganhava mais do que eu ahah